EP169 — Review: Beast of Reincarnation — A Game Freak saiu do bolso e foi de katana

Quando a Game Freak, o estúdio que passou três décadas quase que exclusivamente criando Pokémon, anunciou um action RPG sombrio ambientado num Japão pós-apocalíptico, a reação da internet foi basicamente “espera, o quê?”. Depois de quase 30 anos trabalhando quase exclusivamente em títulos de Pokémon, a Game Freak surpreendeu muita gente ao anunciar Beast of Reincarnation, um action RPG ágil e visualmente impressionante diferente de tudo que o estúdio já fez antes. A expectativa aqui era de ver se eles conseguiriam mesmo dar essa virada de chave, ou se ia ficar naquele “é bonito mas tá faltando alma”. Spoiler: a resposta está em algum ponto no meio.

O Que E o Jogo

Beast of Reincarnation é um action RPG desenvolvido pela Game Freak e publicado pela Fictions, rodando em Unreal Engine 5, disponível para PlayStation 5, Xbox Series X/S e PC. É o primeiro título AAA do estúdio fora da franquia Pokémon, dirigido por Kota Furushima, que anteriormente trabalhou no sistema de batalhas e som de vários jogos da série. O preço de lançamento é de R$ 59,99 no Steam/Xbox (US$59.99), e a boa notícia para quem tem Game Pass é que ele entrou no serviço no dia do lançamento tanto no Xbox quanto no PC Game Pass.

Este é o primeiro grande título AAA da Game Freak fora da franquia Pokémon, construído em Unreal Engine 5. Diferente dos tradicionais souls-likes, Beast of Reincarnation mistura combate em tempo real com katana com um sistema de comandos ao parceiro. As comparações que mais aparecem entre críticos e jogadores são com Sekiro, NieR: Automata e até Final Fantasy VII Remake, o que já diz muito sobre as ambições do projeto.

A Historia (sem spoilers grandes)

Beast of Reincarnation se passa no Japão no ano 4026, muito depois de o mundo ter sido devastado pela Praga. A humanidade está à beira do colapso, a terra está repleta de ameaças monstruosas, e até o ambiente pode se transformar sob a influência dessa estranha corrupção. O jogador controla Emma, uma pária que nasceu com a Praga. Temida e rejeitada pela sociedade, Emma tem a capacidade de manipular crescimentos vegetais, incluindo seu próprio cabelo, que pode ser usado para travessia e ataques. Ela também carrega o papel de uma Seladora, caçando criaturas perigosas chamadas malefatos e absorvendo a praga delas em seu próprio corpo.

Koo, por sua vez, é um cachorro contaminado pela praga e ele próprio um malefato. Emma e Koo deveriam ser, pelas regras desse mundo, inimigos naturais. Em vez disso, o encontro deles coloca a história em movimento, mandando ambos por uma paisagem árida e misteriosa em direção ao Beast of Reincarnation, a fonte de toda a praga. A premissa é emocionalmente rica, com temas de solidão, rejeição e o que significa ser humano, mas a execução da narrativa durante a campanha recebeu críticas por pacing arrastado e diálogos que não entregam tudo que a história promete.

Gameplay — Como E Jogar de Verdade

Aqui é onde o jogo realmente brilha. Beast of Reincarnation se descreve como um action RPG “uma pessoa, um cachorro”, e essa frase carrega bastante peso. Em vez de simplesmente dar ao jogador um companheiro que segue em segundo plano, o jogo constrói seu combate em torno da parceria entre Emma e Koo. Emma luta em tempo real com ataques à base de espada, enquanto Koo pode ser comandado para desencadear técnicas através de um sistema inspirado em RPGs por turnos.

Usar as Artes Bloom de Koo requer Pontos de Fluorescência (FP). Emma ganha esses pontos principalmente ao aparar ataques inimigos com sucesso, tornando o timing defensivo uma parte essencial do sistema de combate, e não uma técnica opcional. Isso cria um loop muito satisfatório: você para um golpe no timing certo, acumula FP, e aí solta uma habilidade devastadora do Koo enquanto o tempo desacelera para você escolher qual usar. O menu das Bloom Arts faz o tempo desacelerar para que você pense na sua escolha, e se parece familiar, é porque lembra o combate de Final Fantasy 7 Remake.

O jogo oferece personalização profunda de personagem, com árvores de habilidades únicas, equipamentos poderosos e pedras espirituais. Você define sua abordagem de combate ao abraçar ataques à distância, dominar táticas furtivas ou se engajar em combate corpo a corpo agressivo. Os arquétipos de arma mudam bastante a sensação, com a Katana sendo mais precisa e técnica, as Dual Blades mais frenéticas, e a Naginata com alcance maior, sendo a opção mais amigável para iniciantes. O equilíbrio entre usar Emma e Koo não clica de verdade até mais tarde no jogo, quando você começa a desbloquear outras formas de aplicar debuffs. Aí você começa a planejar suas estratégias, descobrindo as fraquezas dos inimigos e usando as melhores habilidades e debuffs para derrubá-los.

A campanha é conduzida por história, não mundo aberto: uma sequência linear de cerca de 13 capítulos mais um epílogo, cada um construindo em direção a um Malefato colossal, um guardião corrompido e gigantesco, alguns deles chamados Nushi, que corrompe a floresta ao redor. Isso ajuda a manter o foco, mas a linearidade também expõe o problema de variação de inimigos, especialmente nos primeiros capítulos, onde você enfrenta os mesmos tipos de criaturas por tempo demais antes de a diversidade chegar.

Momentos Que Ficaram na Memoria

O primeiro encontro com um Nushi de grande porte é uma pancada. Os Nushi são chefes Malefatos imponentes que dominam regiões por todo o Japão pós-apocalíptico. Cada Nushi gera uma floresta contaminada, território denso e coberto por vegetação que deforma a paisagem e faz surgir Malefatos menores. Quando você entra nesse bioma mutado pela primeira vez, o design de arte simplesmente te para. A música engrena num tom melancólico e urgente ao mesmo tempo, e a sensação de que você está num lugar fundamentalmente errado bate forte. Foi um dos primeiros momentos em que o jogo mostrou que sabe criar atmosfera de verdade.

O favorito dos críticos, e que virou assunto também na comunidade, foi um encontro recorrente contra um misterioso espadachim chamado Shidou e seu próprio Nushi, colocando Emma e Koo contra outra dupla humano/malefato e forçando o jogador a mudar constantemente de táticas dependendo de qual dos dois está focando os ataques no jogador. Esse tipo de espelhamento narrativo com gameplay é o que o jogo faz de melhor: a história e a mecânica conversando ao mesmo tempo.

O momento mais frustrante, sem dúvida, foi a câmera durante batalhas contra inimigos enormes. Muitos jogadores reclamaram que a câmera fica muito próxima da protagonista Emma, tornando as batalhas mais difíceis do que precisam ser. Num boss de porte descomunal, perder a noção de onde estão os ataques porque a câmera está grudada nas costas da Emma é algo que tira completamente o ritmo do confronto. A boa notícia é que a Game Freak já assumiu o problema e disse que o primeiro patch, a ser lançado em aproximadamente uma semana, vai conter ajustes de câmera, aumento do tamanho da fonte e ajustes no pacing da história, além de correções de bugs.

Dicas Para Quem Vai Jogar

  • Mude para o modo Performance imediatamente: o padrão de fábrica é o modo Cinemático, que roda a cerca de 30fps em troca de resolução maior. O modo Performance mira 60fps e vale muito mais para o tipo de combate que o jogo exige. Não perca tempo jogando em Cinemático.
  • Aprenda o parry antes de qualquer coisa: o combate tem forte ênfase em aprender os padrões de ataque dos inimigos e em realizar parries precisos. Ataques básicos sozinhos raramente bastam contra criaturas maiores, Golems avançados e Nushi poderosos. Você precisa combinar bloqueio, parry, esquiva, posicionamento e comandos ao companheiro para sobreviver nos encontros difíceis.
  • Priorize upgrades de Emma e Koo antes de investir em armadura: a comunidade no subreddit oficial mapeou rotas de farming e o consenso é que novos jogadores devem priorizar o upgrade da Katana de Emma e as Presas de Koo antes de investir em armadura. Fazer mais dano resolve encontros bem mais rápido que ter mais resistência.
  • Remapear os comandos de Koo no PC: os Comandos Espectrais de Koo devem ser mapeados para as teclas de acesso mais fácil, porque a diferença entre um ataque de sinergia bem-sucedido e um falho é muitas vezes menos de 0,3 segundos de tempo de reação. O mapeamento padrão coloca esses comandos na fileira numérica, que é subótimo para a maioria dos jogadores.
  • Não desista nos primeiros capítulos: a variação de inimigos e o sistema de Koo demoram a engrenar. O equilíbrio entre usar ambos não clica de verdade até mais tarde no jogo, conforme você vai desbloqueando outras formas de aplicar debuffs. Persista além do Capítulo 2 antes de julgar o combate de verdade.

O Que Esta Otimo

  • O sistema de combate central é viciante: Beast of Reincarnation coloca ênfase considerável em timing, parry, esquiva e explorar aberturas dos inimigos. O sistema de combate focado em parry, combinado com as habilidades do companheiro Koo e a necessidade de aprender o comportamento dos inimigos, está consistentemente entre os aspectos mais elogiados do jogo.
  • Direção de arte e trilha sonora excepcionais: a música é atmosférica, emocional e perfeitamente sintonizada com a paisagem japonesa pós-apocalíptica, melancólica mas esperançosa, intensa no combate e quietamente bela durante a exploração. Ela permanece mesmo depois que você larga o controle. O design de criaturas, afinal feito pelo estúdio com décadas de experiência criando monstros, é singular.
  • Acessível no Game Pass e com personalização sólida: o jogo oferece personalização profunda, com árvores de habilidades únicas, equipamentos poderosos e pedras espirituais, permitindo definir sua abordagem de combate — seja furtivo, à distância ou puro corpo a corpo. Além disso, entrar no Game Pass no dia um torna a decisão muito mais fácil para assinantes.

O Que Podia Ser Melhor

  • Problemas técnicos reais no lançamento: Beast of Reincarnation chegou, mas como a maioria dos grandes lançamentos, não chegou sem sua cota de problemas técnicos. Enquanto alguns jogadores encontraram apenas falhas visuais menores ou solavancos de desempenho, outros relataram problemas mais sérios, incluindo travamentos, stuttering e erros de inicialização no PC. A câmera problemática, o texto minúsculo e o modo Cinemático como padrão são erros básicos que deveriam ter sido resolvidos antes do dia um.
  • Narrativa e pacing aquém do potencial: críticos criticaram repetidamente a história, o pacing, os ambientes repetitivos e as ideias familiares emprestadas de outros action RPGs. A premissa emocional de Emma e Koo é forte, mas os diálogos, especialmente usando a dublagem em inglês, têm intervalos notáveis entre as falas, que se estendem além do que deveriam e tiram o jogador do momento de forma que se acumula ao longo de uma sessão inteira.

Vale o Preco?

Beast of Reincarnation vale experimentar se você curte combate focado em parry, personalização de personagem, batalhas grandes contra chefes e mecânicas de companheiro. Vira uma recomendação mais difícil no preço cheio de US$59,99 se você espera uma história altamente original ou uma aventura com design bem ajustado. Para o jogador brasileiro que vai desembolsar entre R$ 300 e R$ 350 dependendo da plataforma, vale esperar os primeiros patches estabilizarem o jogo.

Assinantes do Game Pass têm a decisão mais fácil, já que o jogo está disponível pelo serviço no lançamento. Se você já tem Game Pass, não tem desculpa para não testar. Se não tem, a recomendação honesta é aguardar o patch de câmera e pacing que a Game Freak prometeu lançar até meados de agosto, e verificar se as avaliações do Steam saem do “Misto” para algo mais positivo. O estúdio emitiu uma promessa de “série de atualizações contínuas” para resolver as reclamações do lançamento, e também publicou uma pesquisa para coletar feedback adicional dos jogadores. O engajamento com a comunidade é positivo, mas as promessas precisam se concretizar.

Veredicto Final

Beast of Reincarnation é uma estreia ambiciosa e ousada da Game Freak fora do universo Pokémon, e a coragem de fazer essa virada de chave merece reconhecimento. Com nota 73 no Metacritic e 76 no OpenCritic, o jogo ficou abaixo do potencial enorme que demonstrava, mas ainda assim entregou algo que vale atenção. O combate entre Emma e Koo é genuinamente inventivo, o mundo é visualmente lindo e perturbador ao mesmo tempo, e a Game Freak mostrou que tem muito mais a oferecer além dos monstrinhos de bolso. Mas os problemas técnicos de lançamento, os diálogos arrastados e uma câmera traiçoeira nos momentos mais importantes impedem que o jogo chegue onde poderia. ESPERA PROMOÇÃO se for comprar no full price. COMPRA imediata se você tiver Game Pass. A base é sólida e o potencial é real. Só precisa de um pouco mais de polimento para brilhar do jeito que merece.

🎮

Nota EpicPixel

Hype Score
3.5/5

Veredicto: ESPERA PROMOCAO — combate brilhante, mas problemas técnicos e narrativa morna pedem paciência antes do full price