EP148 — Review: Resident Evil Requiem — O nono capítulo que veio provar que a Capcom ainda sabe dar medo de verdade

Quando a Capcom anunciou mais um Resident Evil, confesso que minha reação foi um misto de empolgação e aquela leve desconfiança de quem já viu franquia grande tropeçar feio. Mas quando souberam que Leon Kennedy voltava, e que vinham com uma protagonista nova do zero, a curiosidade bateu forte. Fui pra cima sem expectativa de obra-prima, e saí do outro lado completamente convencido de que a Capcom ainda sabe o que está fazendo.

O Que E o Jogo

Resident Evil Requiem é um jogo de survival horror de 2026, desenvolvido e publicado pela Capcom. É o nono título principal da série Resident Evil, chegando depois de Resident Evil Village (2021). O jogo foi lançado para Nintendo Switch 2, PlayStation 5, Windows e Xbox Series X/S em 27 de fevereiro de 2026. Está disponível tanto na Steam quanto na Epic Games Store, sendo, inclusive, o primeiro lançamento da Capcom nessa última plataforma. O preço padrão no lançamento foi de R$ 349,99 na edição Standard.

O jogo foi dirigido por Koshi Nakanishi, o mesmo diretor de Resident Evil 7. Como todos os RE desde o 7, Requiem foi desenvolvido usando a RE Engine, sendo ainda o primeiro Resident Evil criado exclusivamente para consoles de nona geração, construído desde o começo com ray tracing em mente. No PC, quem tem placa Nvidia consegue aproveitar path traced lighting completo, o que faz o jogo parecer um filme de terror de Hollywood rodando em tempo real.

A Historia (sem spoilers grandes)

O jogo apresenta uma nova protagonista jogável, a analista do FBI Grace Ashcroft, que investiga uma série de mortes misteriosas envolvendo sobreviventes do incidente de Raccoon City, com a ajuda do agente federal Leon S. Kennedy. A história de Requiem se passa em outubro de 2026, 28 anos após a destruição de Raccoon City. Dá pra entrar no jogo sem ter jogado todos os anteriores, mas quem conhece a lore vai sorrir muito com as referências espalhadas por todo canto.

Grace Ashcroft investiga mortes misteriosas entre sobreviventes do incidente de Raccoon City causadas por mutações do T-vírus, conhecidas como Síndrome de Raccoon City. Ela é designada para inspecionar uma vítima descoberta no desolado Hotel Wrenwood, o mesmo lugar onde sua mãe, Alyssa, foi assassinada oito anos antes. No trecho final, o enredo se concentra em um elemento chamado Elpis, posicionado como uma potencial superarma e usado para forçar uma escolha moral decisiva, que determina o rumo do desfecho e abre portas para o futuro da série. Sem entregar mais do que isso: o roteiro tem seus altos e baixos, mas os momentos altos são muito bons.

Gameplay — Como E Jogar de Verdade

O gameplay alterna entre Grace e Leon. As seções de Grace continuam o estilo de survival horror de Resident Evil 7 e Village, enquanto as seções de Leon são mais orientadas para a ação, similar a Resident Evil 4. Essa divisão é o coração do jogo, e funciona muito bem na prática. Você passa um tempo sufocado, gerenciando cada bala como se fosse ouro, e depois a câmera corta pro Leon e você finalmente respira, porque agora dá pra atirar em tudo que se move.

As seções de Grace focam em survival horror com recursos limitados, exigindo mais cautela. O gameplay envolve fugir de ameaças, resolver puzzles e gerenciar slots de inventário limitados. Grace é periodicamente perseguida por uma criatura conhecida como “a Garota”, imune a dano normal e que deve ser evitada, de forma parecida com o Mr. X de RE2 ou Lady Dimitrescu de Village. O diretor Nakanishi chamou Grace de “a personagem mais covarde de toda a história de Resident Evil”, dizendo que o gameplay dela destaca sua inexperiência com ameaças biológicas. E acredite: isso não é crítica. É exatamente o que faz ela funcionar tão bem. Você sente o medo junto com ela.

Uma das adições mais interessantes é um sistema de “personalidade” para os inimigos. Os zumbis mantêm traços de suas vidas anteriores, como faxineiros que ficam limpando corredores ou figuras repetindo rotinas familiares. E esses comportamentos não são só detalhe visual: jogadores atentos conseguem usá-los estrategicamente para se esquivar dos inimigos, preparar emboscadas ou poupar recursos preciosos. A Capcom também confirmou um sistema de crafting que permite criar itens usando sangue retirado de inimigos infectados, adicionando mais uma camada de decisão de risco e recompensa. É daquele tipo de mecânica que parece pequena mas que muda completamente como você pensa o jogo.

Quando você joga como Leon, o foco muda completamente para a ação. O gameplay de Leon é muito próximo ao do remake de Resident Evil 4, com você avançando por grupos de inimigos. Nas fases de Leon, você também vai encarar vários confrontos de chefes complexos. Além de um arsenal de armas de fogo e seu machado, Leon consegue lutar usando ataques corpo a corpo, aparadas e até armas dos próprios inimigos. O ritmo entre as duas campanhas é bem calibrado, e você raramente sente que uma atrapalha a outra. A transição entre horror e ação não parece forçada.

Momentos Que Ficaram na Memoria

A primeira vez que a Garota aparece no corredor do Rhodes Hill é um daqueles momentos que você não esquece. Não tem como se preparar para o som que ela faz, nem para o jeito como ela atravessa as paredes procurando você. Fiquei parado atrás de uma mesa por uns três minutos esperando ela sair, suando frio de verdade. Grace consegue se abaixar e se esconder embaixo de objetos como mesas. Mas o monstro consegue também rastrear o jogador através de paredes e tetos, e precisa ser exposto à luz para que ele possa ser danificado. Quando descobri essa mecânica da luz, a ficha caiu de um jeito absurdo.

Quando a câmera corta pra Leon pela primeira vez depois de um trecho longo e sufocante com Grace, a sensação de alívio é quase física. Você pega uma espingarda, entra numa sala cheia de zumbi e simplesmente vai à loucura. O diretor Koshi Nakanishi disse que a estrutura de dois protagonistas permite alternar entre as seções mais lentas e focadas em horror de Grace e as sequências de ação mais rápidas de Leon, e que as sequências de Leon oferecem ao jogador uma sensação de alívio depois dos capítulos de Grace. E essa frase resume perfeitamente o que acontece com você quando controla o Leon.

A descoberta de que Grace tem uma ligação muito mais profunda com a história da Umbrella do que parecia no início é um daqueles reviravoltas que fazem você parar o jogo, ficar olhando pra tela e dizer um palavrão de admiração. Isso conecta Grace à era de Raccoon City sem transformá-la em mais uma heroína reciclada, e dá ao Requiem uma razão para continuar orbitando os pecados originais da série enquanto ainda deixa uma nova protagonista conduzir o ponto de vista emocional. É escrita inteligente, mesmo quando o jogo tropeça em outros lugares.

Dicas Para Quem Vai Jogar

  • Não desperdice recursos com Grace. Por conta da falta de armas e do foco em gerenciamento de recursos, é recomendado evitar confrontos como Grace, só lutar quando for necessário e contornar ou distrair zumbis com garrafas. A tentação de sair atirando em tudo vai te deixar seco na hora errada.
  • Use os injetores hemolíticos com sabedoria. Durante o jogo, Grace pode encontrar ou craftar injetores hemolíticos, um item especial capaz de matar instantaneamente a maioria dos zumbis que ela encontra, além de garantir que zumbis já mortos não mutacionem em Blister Heads. Guarde para emergências com a Garota ou para grupos grandes.
  • Mude a perspectiva de câmera conforme a situação. Os jogadores conseguem alternar livremente entre primeira e terceira pessoa a qualquer momento, adaptando a experiência ao estilo de jogo preferido. Primeira pessoa é mais imersiva e apavorante; terceira pessoa ajuda na hora de fugir da Garota.
  • Observe o comportamento dos zumbis antes de agir. Os comportamentos dos zumbis não são só detalhes visuais: jogadores atentos conseguem usá-los estrategicamente para se esquivar, preparar emboscadas ou poupar recursos preciosos. Um zumbi varrendo o corredor tem um padrão fixo, e dá pra passar por ele fácil se você prestar atenção.
  • Invista nas melhorias de arma do Leon com cuidado. O sistema de mercador no lado do Leon lembra o de Resident Evil 4 (2023), mas com menos variedade de armas e menos opções de upgrade em geral. Escolha uma ou duas armas e foque o upgrade nelas, em vez de distribuir os recursos em tudo.

O Que Esta Otimo

  • A dualidade de protagonistas é genial na prática. O jogo faz um trabalho sólido ao dividir 50/50 o gameplay de survival horror de Grace e o gameplay de ação de Leon. Essa decisão serve bem à base de fãs, já que metade prefere horror e metade prefere ação, deixando a maioria dos jogadores com algo a esperar. É raro ver um design tão difícil de equilibrar funcionar tão bem.
  • Visualmente é uma pancada. É o primeiro Resident Evil desenvolvido exclusivamente para consoles de nona geração, construído com ray tracing desde o início. No PC, conta com path traced lighting completo, incluindo iluminação global com ray tracing de múltiplos saltos. Os ambientes do Rhodes Hill são opressivos e lindos ao mesmo tempo, do jeito que só a RE Engine consegue entregar.
  • Grace Ashcroft é um dos melhores acertos da Capcom nos últimos anos. Grace foi projetada como uma protagonista tímida e medrosa para enfatizar os elementos de survival horror. Críticos elogiaram Grace como “o melhor personagem novo desde os quatro originais”. Você vai se importar com ela do começo ao fim.

O Que Podia Ser Melhor

  • Os chefes do Leon decepcionam. As lutas contra chefes são surpreendentemente esquecíveis, o que desaponta para uma franquia conhecida por encontros memoráveis. Os antagonistas também carecem de presença e personalidade. Você chega num confronto esperando algo épico, e muitas vezes recebe um QTE glorificado.
  • A campanha poderia ser mais longa. A campanha parece mais curta do que deveria ser, especialmente considerando quanto potencial o cenário oferece. Voltar a Raccoon City é empolgante, mas o jogo nunca aproveita completamente a oportunidade. Revisitar a delegacia e as áreas ao redor é divertido, mas os desenvolvedores poderiam ter explorado muito mais da cidade e de sua história. O cenário acaba se sentindo subutilizado.

Vale o Preco?

Sim, vale o preço cheio. Requiem vendeu cinco milhões de cópias em cinco dias e mais de sete milhões em dois meses, tornando-se o Resident Evil mais rápido a atingir essas marcas de vendas. Não é hype vazio: o jogo entrega uma experiência completa, com muitas horas de conteúdo e altíssima rejogabilidade graças às duas perspectivas de gameplay, ao sistema de dificuldades e ao desfecho com múltiplos finais.

O título mantém desempenho sólido nas avaliações críticas, com mais de 89 no OpenCritic e aprovação de 96% da parte dos críticos. O nono título principal da Capcom tem um Metascore geral de 88, e sua nota de usuários no Metacritic chegou a 9.5, tornando-o o jogo com maior nota de usuários de toda a plataforma. Quem quiser esperar promoção não vai ter problema em encontrar o jogo por um preço mais baixo daqui a alguns meses, mas sabe aquela sensação de jogar o que todo mundo tá jogando ao mesmo tempo? Aqui vale a pena.

Veredicto Final

Resident Evil Requiem é COMPRA, sem hesitar. O jogo entrega uma volta poderosa a Raccoon City, combinando peso emocional com survival horror de ritmo impecável e uma estrutura de dois protagonistas com experiências de gameplay distintas e perfeitamente equilibradas. É uma evolução confiante da franquia que honra seu legado enquanto o empurra pra frente. Se você nunca tocou num Resident Evil, esse aqui é um ponto de entrada excelente. Se você é fã de longa data, vai encontrar o jogo mais completo e bem-acabado que a Capcom fez em anos. Chega de enrolação: instala logo.

🎮

Nota EpicPixel

Hype Score
4.5/5

Veredicto: COMPRA — Se você curte terror ou ação, esse jogo entrega os dois no mesmo pacote e faz isso muito bem.