Imagina você construir Halo, um dos jogos mais importantes da história, fundar uma nova franquia bilionária chamada Destiny, ser comprado por quase quatro bilhões de dólares e, no final, terminar com metade do seu time na rua e nenhum jogo no forno. Pois é exatamente isso que está acontecendo com a Bungie agora. A Sony acabou de confirmar uma das maiores ondas de demissões que a indústria já viu, e o cheiro de fumaça ainda não saiu do ar.
O Que Rolou
A Sony iniciou uma grande onda de demissões na Bungie, “afetando um número significativo de funcionários”. O comunicado oficial veio direto do CEO da Sony Interactive Entertainment, Hermen Hulst, num e-mail interno que foi publicado abertamente. Sem rodeios, sem papo bonito: a casa tá caindo.
Os cortes afetam a maior parte da equipe de Destiny, alguns membros da equipe de Marathon e pessoal da própria SIE que dava suporte às operações da Bungie. O número exato não foi oficializado, mas fontes indicam cerca de 400 vagas afetadas de um total de aproximadamente 800 funcionários. Metade do estúdio. De uma vez. Isso não é uma reestruturação, é uma demolição.
A própria Bungie admitiu publicamente que Destiny 2 não correspondeu às expectativas nos últimos anos e que, após a atualização final do jogo, o estúdio simplesmente não conseguiria continuar operando com o mesmo número de funcionários. Destiny 2, o jogo de serviço ao vivo que a Bungie desenvolvia desde 2017, chegou ao fim quando sua última atualização de conteúdo foi lançada. Fim de linha, literalmente.
O Contexto Por Trás
A Bungie tem uma história que parece roteiro de Hollywood, e não do tipo com final feliz. A Microsoft adquiriu a Bungie em 2000, e o projeto Halo se tornou o jogo de lançamento do Xbox, virando um verdadeiro “killer app” que vendeu milhões de cópias. Em 2007, a Bungie anunciou a separação da Microsoft e se tornou uma empresa independente, enquanto a Microsoft ficou com a propriedade intelectual do Halo. Aí veio Destiny, que foi enorme, e depois Destiny 2, que sustentou o estúdio por quase uma década.
Em 2022, a Sony adquiriu a Bungie por 3,6 bilhões de dólares, apostando que o estúdio seria o pilar da estratégia de jogos de serviço ao vivo do PlayStation. O plano era claro: a Bungie dominava o modelo de live service como poucos, e a Sony queria isso na sua prateleira. A Bungie expandiu agressivamente durante o boom pós-pandemia, contratando centenas de desenvolvedores e pessoal de suporte para projetos além do Destiny 2. Quando o engajamento dos jogadores e o crescimento da receita não atingiram as projeções, a pressão financeira aumentou. Marathon chegou como a grande aposta do futuro, mas no momento da publicação deste texto, Marathon conta com menos de 5 mil jogadores no Steam, e para um jogo que custou mais de 200 milhões de dólares, esses números são assustadoramente ruins.
O Que a Comunidade Tá Falando
A reação da comunidade mistura tristeza, raiva e um certo “eu avisei”. A comunidade de Destiny 2 reagiu rapidamente às notícias, com muitos jogadores expressando preocupação sobre o futuro do jogo nas redes sociais e fóruns. Alguns fãs demonstraram apoio à equipe que permanece, mas outros mostraram frustração por sentir que grandes promessas não foram cumpridas. Essas demissões chegam um mês após a Bungie anunciar o fim do desenvolvimento de Destiny 2 com a atualização final chamada “Monument of Triumph”. Fãs tentaram pressionar a Sony para salvar o jogo e aprovar um Destiny 3, mas não há sinal de que influenciaram os planos.
Essa notícia se soma a outros fracassos da Sony no universo de jogos de serviço ao vivo, com títulos cancelados e estúdios fechados por conta disso. Quem lembra do Concord, o herói-shooter que durou menos de duas semanas no mercado antes de ser cancelado, entende que isso não é surpresa alguma. Essa é somente a rodada mais recente de demissões na Bungie, que tem perdido centenas de funcionários desde 2024. Visto no passado como um dos pilares da estratégia de live service do PlayStation, o estúdio é encarado atualmente como um dos piores investimentos já feitos pela Sony no mundo dos games.
Curiosidades Que Você Não Sabia
- A aquisição da Bungie pela Sony em 2022 teria sido, segundo reportagens, uma “aquisição de emergência” necessária para manter o estúdio financeiramente à tona. Ou seja, a Sony pode ter comprado um estúdio que já estava com problemas sérios, e pagou 3,6 bilhões por isso.
- Em sua última apresentação de resultados, a Sony Interactive Entertainment registrou uma perda por redução ao valor recuperável de 765 milhões de dólares relacionada aos ativos da Bungie. Pra colocar em perspectiva: isso é maior do que o orçamento de produção de muitos blockbusters de Hollywood.
- Segundo o jornalista Jason Schreier, o chefe do estúdio da Bungie, Justin Truman, que havia assumido o cargo no lugar de Pete Parsons, também deixou o cargo junto com as demissões. Em outras palavras, não sobrou nem a liderança.
Nossa Opinião
A gente precisa ser direto aqui: isso é uma tragédia humana antes de qualquer coisa. Quatrocentas pessoas, com família, aluguel pra pagar e anos de dedicação a um estúdio que ajudou a moldar os games modernos, foram simplesmente mandadas embora. Isso dói. Independente de qualquer análise de negócio, ninguém merece saber que perdeu o emprego por um comunicado interno que vazou na internet antes mesmo de chegar oficialmente.
Dito isso, do ponto de vista da indústria, o caso da Bungie é o maior aviso que a era dos live services pode dar: crescer rápido demais, depender de um único modelo de receita e ignorar o que a comunidade quer é receita certa para desastre. Para a indústria, o colapso da Bungie de estúdio independente para uma unidade em modo de austeridade é um conto de advertência sobre os limites da economia dos jogos de serviço ao vivo. A Sony pagou quase quatro bilhões de dólares num sonho que não se realizou, e quem pagou o preço mais alto foi quem nunca deveria ter pago: os desenvolvedores. A indústria precisa aprender com isso. E rápido.
Nota EpicPixel
1.5/5
Veredicto: Um dos maiores estúdios da história dos games virando pó por dentro, e a Sony assistindo de camarote.
